Estamos cansados de saber que xingar e brigar não resolve problema nenhum. Às vezes, entretanto, nos falta alternativa. Não só por falta de paciênca, mas por falta de repertório mesmo. Se eu não posso gritar e acusar, qual é a melhor alternativa?
O livro Comunicação Não-Violenta traz, logo nas primeiras páginas, uma série de instruções muito claras sobre como ter uma conversa difícil que dispensa a parte da briga e vai direto para a resolução do problema. Afinal, é isso que você quer, não é?
4 passos para pedir que alguém resolva algo com educação
São quatro passos simples na teoria e, claro, bem desafiadores na vida real:
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Dizer qual é o problema observado
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Dizer como você se sente sobre o problema
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Mostrar quais são as suas necessidades
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Formular um pedido claro para o outro
1 – Diga qual é o problema
Primeiro, você deve descrever a situação como você a percebe. É importante deixar claro que o que você está contando é a sua forma de ver o problema, assim há espaço para a outra pessoa manifestar a opinião dela.
O livro dá o exemplo de uma mãe que quer resolver a questão do filho adolescente que está sempre deixando a toalha molhada largada pela da casa. Na primeira fase da conversa, ela deve dizer “observei que você deixou a toalha molhada no sofá”.
O “truque” é descrever a situação de uma forma neutra e fugir de frases acusatórias como “você é bagunceiro” ou “você sempre me irrita com seu desleixo”.
2 – Diga como você se sente
O sangue pode estar fervendo, mas é preciso partir para a segunda parte com o máximo de calma possível. Depois de expor o problema, diga como ele faz você se sentir. “Observei a toalha em cima do sofá e isso me deixou chateada”. O livro sugere que, nesse ponto, você tente fugir da estrutura “sinto que” e prefira as palavras “sinto-me”. O autor entende que, quando dizemos “sinto que”, tendemos a expressar uma opinião e não um sentimento. “Sinto que você deixa a toalha molhada no sofá porque não se importa com a organização da casa”, por exemplo. Quando dizemos “sinto-me” é mais fácil completar com uma emoção. “Sinto-me decepcionada com a toalha no sofá”.
3 – Mostre quais são as suas necessidades
Depois de dizer como se sente, diga o que você precisa naquele momento. A ideia aqui não é isentar a outra pessoa da responsabilidade dela, mas focar na nossa necessidade é uma maneira mais eficaz e menos violenta de propor algo. Para realmente resolver problemas, faz mais sentido explicar o que você precisa do que xingar o outro. Diga algo como, “eu preciso que a toalha não seja colocada em cima do sofá porque valorizo muito viver em um espaço organizado”.
4 – Faça um pedido claro
Acho esse ponto revolucionário porque, na hora da raiva, queremos extravasar, gritar, xingar, jogar tudo no outro. O problema é que às vezes até esquecemos de realmente tentar resolver a questão. O quarto passo da comunicação clara e não-violenta para conversas difíceis é expressar exatamente o que você precisa que seja feito.
No exemplo da toalha, Rosenberg lembra para não terminar o papo dizendo “quero que você seja mais organizado” ou “quero que você cuide da casa também”. Essas frases não são objetivas e podem soar como acusação, o que fará o outro partir para a defensiva. Nesse caso, é melhor dizer “preciso que você coloque a toalha no banheiro toda vez que terminar de usá-la”.
Mais conversas difíceis, menos brigas
Eu amei os quatro passos e estou tentando usá-los até nas minhas conversas comigo mesma. Ontem me irritei com a vizinha fazendo barulho tarde da noite e pensei “que mulher mal educada e sem noção”. Depois tentei formular essa mesma frase na minha cabeça, mas focando nas minhas necessidades e não no meu julgamento sobre o outro. Consegui perceber que o que mais me chateava na bagunça ao lado era me sentir invadida e obrigada a brigar para defender o meu espaço. Como eu não lido bem com conflitos, o melhor jeito de expressar o abuso com a vizinha sem acusá-la de nada foi “O barulho na casa dela está muito alto e isso me deixa chateada porque não gosto de ter que fazer reclamações, mas acho que nesse caso será necessário”. Ou simplesmente, “estou estressada por ter que sair do meu estado natural de calma”.
Sim, eu sei que o mundo não é fofinho assim…
Infelizmente, nem sempre a comunicação não-violenta será a melhor alternativa. É difícil aplicar qualquer técnica de diálogo com quem já decidiu que não quer papo com você. Em algumas situações, não conversar é o melhor caminho. Em relacionamentos abusivos, ir embora é a única solução.
Acredito, entretanto, que a comunicação não-violenta tem muitas utilidades práticas e que esses quatro passos resolvem muitos problemas. Estou também muito interessada na ideia de focar nas nossas necessidades e não no erro do outro. Infelizmente, estamos vivendo um momento em que apontar o dedo rende mais “ibope” do que propor algo. Vamos mudar isso?



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