{"id":321,"date":"2017-03-15T13:00:00","date_gmt":"2017-03-15T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/suzanavalenca6.wordpress.com\/2017\/03\/15\/2017-3-10-como-brigar-na-internet-corretamente\/"},"modified":"2017-03-15T13:00:00","modified_gmt":"2017-03-15T13:00:00","slug":"2017-3-10-como-brigar-na-internet-corretamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/suzanavalenca.com\/?p=321","title":{"rendered":"Como brigar na internet (corretamente)"},"content":{"rendered":"<div class=\"sqs-html-content\">\n<p class=\"\">Se voc\u00ea nunca quis brigar no Facebook tem algo errado com voc\u00ea. Brincadeira \u00e0 parte, quem nunca leu uma bobagem na internet e precisou conter a \u00e2nsia de sair logo criticando? As redes sociais, com seu infinito potencial para criar conex\u00f5es incr\u00edveis entre os seres humanos, s\u00e3o tamb\u00e9m um lugar prop\u00edcio para bate-boca. Eu j\u00e1 tive que me segurar muitas vezes. E j\u00e1 parti para a discuss\u00e3o tamb\u00e9m. Mas acho que d\u00e1 para conversar civilizadamente e tirar proveito dessa loucura toda.<\/p>\n<p class=\"\">O escritor e professor <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mortimer_Adler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mortimer Adler<\/a> acreditava que para que qualquer discuss\u00e3o fosse produtiva, os debatentes deveriam seguir algumas regras b\u00e1sicas de educa\u00e7\u00e3o e argumenta\u00e7\u00e3o. Ele chamou esse conjunto de orienta\u00e7\u00f5es essenciais de \u201cregras de etiqueta intelectual\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\">Sabe onde est\u00e1 faltando isso a\u00ed? No Facebook, no YouTube, nos coment\u00e1rios do G1, na internet em geral.<\/p>\n<p class=\"\">Adler escreveu seu mini manual em 1940, no livro <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/BRBcwkHAjIF\/?taken-by=3girlsabunchofbooks\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como Ler Livros<\/a>. Ele queria ajudar os leitores a terem uma \u201cdiscuss\u00e3o\u201d frut\u00edfera sobre o conte\u00fado proposto por escritores em suas obras. As ideias dele, entretanto, podem ser transpostas para a internet sem qualquer problema, e est\u00e3o mais atuais do que nunca.<\/p>\n<p class=\"\">Vamos a elas:<\/p>\n<h2>Como saber se voc\u00ea pode brigar&nbsp;<\/h2>\n<p class=\"\">Ok. Voc\u00ea leu aquele text\u00e3o do Facebook defendendo alguma ideia que voc\u00ea julga absurda e, em um piscar de olhos, seus dedos j\u00e1 est\u00e3o furiosamente digitando um contra argumento. Calma! Antes de come\u00e7ar uma briga (ou melhor, uma discuss\u00e3o civilizada), analise se as regras de etiqueta intelectual foram cumpridas.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Primeira regra: \u201cN\u00e3o critique at\u00e9 que tenha completado o delineamento e a interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong> do livro. (N\u00e3o diga que concorda, discorda ou que suspende julgamento at\u00e9 que tenha dito entendi)\u201d, explica Adler. No nosso caso, troque \u201clivro\u201d por \u201cpost pol\u00eamico\u201d. Depois, tenha certeza de que voc\u00ea realmente compreendeu o que foi dito antes de come\u00e7ar a argumenta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Nem preciso dizer que n\u00e3o vale comentar (discordando ou concordando!) sem ter lido tudo, n\u00e3o \u00e9?&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Segunda regra: \u201cN\u00e3o discorde de maneira competitiva\u201d.<\/strong> Ou seja, n\u00e3o inicie uma briga (ops, discuss\u00e3o civilizada) para ganhar ou para humilhar quem voc\u00ea est\u00e1 criticando. Discorde para esclarecer algo, para entender o ponto de vista do outro, para aprender mais ou at\u00e9 mesmo para manter a conversa rolando, j\u00e1 que diferen\u00e7as nem sempre s\u00e3o negativas. Mas nunca para competir.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Terceira regra:<\/strong> \u201c<strong>Demonstre que reconhece a diferen\u00e7a entre conhecimento e opini\u00e3o pessoal<\/strong> apresentando boas raz\u00f5es para qualquer julgamento cr\u00edtico que venha fazer\u201d. Gente, esse Adler era danadinho mesmo! Em 1940 o cara j\u00e1 estava ligado no que viemos a chamar de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d e \u201cfatos alternativos\u201d. Aqui s\u00e3o dois passos. Voc\u00ea tem que separar o que no post pol\u00eamico \u00e9 a opini\u00e3o do autor e o que \u00e9 um dado comprov\u00e1vel. Isso vai fazer diferen\u00e7a na hora de bolar a resposta, mas nem sempre \u00e9 \u00f3bvio. Muitos soltam suas ideias sem dizer \u201ceu acho\u201d antes, fazendo parecer que elas s\u00e3o a mais pura realidade. Em seguida, voc\u00ea tem que fazer o mesmo no seu coment\u00e1rio, mostrando o que \u00e9 um sentimento seu e o que \u00e9 um fato. &nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"\n          image-block-outer-wrapper\n          layout-caption-below\n          design-layout-inline\n          combination-animation-none\n          individual-animation-none\n          individual-text-animation-none\n        \"><\/p>\n<figure class=\"\n              sqs-block-image-figure\n              intrinsic\n            \" style=\"max-width:2500px\"><\/p>\n<div class=\"image-block-wrapper\">\n<div class=\"sqs-image-shape-container-element\n              \n          \n        \n              has-aspect-ratio\n            \" style=\"position: relative;padding-bottom:66.68000030517578%;overflow: hidden\"><\/p>\n<p>                  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suzanavalenca.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f30c2-jason-briscoe-hn_4k2diuws-unsplash-1.jpg\" alt=\"jason-briscoe-HN_4K2diUWs-unsplash.jpg\" width=\"2500\" height=\"1667\" style=\"display:block;object-fit: cover;width: 100%;height: 100%;object-position: 50% 50%\" loading=\"lazy\"><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/figure><\/div>\n<div class=\"sqs-html-content\">\n<h2>Como criticar algu\u00e9m<\/h2>\n<p class=\"\">Se voc\u00ea acha que passou bem pelas regras acima, maravilha, pode soltar a m\u00e3o na resposta. Adler tamb\u00e9m elaborou orienta\u00e7\u00f5es sobre como mostrar um argumento contr\u00e1rio para algu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"\">Para ele, o autor de um conte\u00fado s\u00f3 pode estar errado de quatro maneiras. Ou ele est\u00e1 desinformado, ou est\u00e1 mal informado, ou tra\u00e7ou uma linha de racioc\u00ednio errada ou deu uma explica\u00e7\u00e3o incompleta. S\u00f3. Perceba que, com isso, sa\u00edmos do mundo do achismo, da raiva, do fanatismo, enfim, das emo\u00e7\u00f5es inflamadas. A conversa agora \u00e9 sobre dados reais. Todas as formas de criticar algu\u00e9m devem estar nessas categorias. Caso n\u00e3o, seu argumento ser\u00e1 emocional e n\u00e3o intelectual.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\">Se s\u00f3 existem quatro formas de estar errado, s\u00f3 temos tamb\u00e9m quatro formas de criticar. Adler d\u00e1 o caminho:<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Mostre onde o autor est\u00e1 desinformado \u2013<\/strong> Se o dono do post pol\u00eamico disser, por exemplo, que lugar de mulher \u00e9 na cozinha porque elas gostam mais de cuidar da casa, mostre <a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/maioria-das-mulheres-no-brasil-e-no-mundo-prefere-trabalhar-a-ficar-em-casa-diz-pesquisa-oitgallup\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">essa pesquisa<\/a> da <a href=\"http:\/\/www.onu.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONU <\/a>sobre trabalho dom\u00e9stico. Ou pergunte a ele se a afirma\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de um dado, n\u00e3o seria uma opini\u00e3o dele.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Mostre onde o autor est\u00e1 mal informado \u2013<\/strong> Eu acabei de ver uma foto de Trump jovem com seus pais vestidos de KKK. Se eu tivesse postado essa imagem revoltante voc\u00ea poderia dizer que eu estou com uma informa\u00e7\u00e3o errada, que o retrato \u00e9 falso e que a fonte onde eu a encontrei (o Twitter de um desconhecido) provavelmente n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Mostre onde o autor foi il\u00f3gico \u2013<\/strong> \u00c9 o famoso \u201cl\u00e9 com cr\u00e9\u201d. Diga como a linha de racioc\u00ednio (tal ato leva a tal rea\u00e7\u00e3o por tal motivo) n\u00e3o procede. Por exemplo, \u201cum grande fluxo de imigra\u00e7\u00e3o em uma \u00e1rea causa aumento da criminalidade naquele local\u201d. <a href=\"https:\/\/noticias.terra.com.br\/imigracao-tende-a-reduzir-criminalidade-mostram-estudos,4da5f8ab2b066328472066df5def1640rcns48l6.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Isso j\u00e1 foi desmentido<\/a>.<br \/>&nbsp;<br \/><strong>Mostre onde a an\u00e1lise ou explica\u00e7\u00e3o do autor est\u00e1 incompleta \u2013 <\/strong>\u00c0s vezes, a informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 errada porque n\u00e3o est\u00e1 inteira ou \u00e9 um recorte de um contexto maior. Isso acontece muito com estat\u00edsticas, das quais \u00e9 utilizada apenas a parte que interessa para o argumento. Fora de uma perspectiva, alguns dados podem ter interpreta\u00e7\u00f5es bem diferentes.<br \/>&nbsp;<br \/>Se voc\u00ea n\u00e3o puder discordar utilizando um ou mais desses m\u00e9todos, adivinha s\u00f3, de novo seu problema \u00e9 emocional e n\u00e3o racional.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\">O escritor abre uma exce\u00e7\u00e3o, entretanto. Caso voc\u00ea, o cr\u00edtico, desconfie de que o autor incorreu em algum dos problemas acima, mas n\u00e3o tiver dados para mostrar-lhe esse erro, voc\u00ea pode &#8220;suspender o julgamento&#8221;. Voc\u00ea pode nem concordar, nem discordar, pode ficar &#8220;desconfiado em cima do muro&#8221;. Mas neste caso n\u00e3o discuta. Seja educado.<\/p>\n<h2>N\u00e3o brigue com qualquer um<\/h2>\n<p class=\"\">O escritor elaborou essas ideias para ajudar o leitor a discutir intelectualmente. As ideias s\u00e3o voltadas para quem vai contra argumentar, rebater um conte\u00fado. Eu acho, entretanto, que talvez possamos espelhar as regras de Adler e, desta forma, usarmos estas orienta\u00e7\u00f5es para decidirmos com quem vamos brigar.<\/p>\n<p class=\"\">&nbsp;Funcionaria assim:&nbsp;qualquer postagem, tuite, artigo, que n\u00e3o cumprissem as regras b\u00e1sicas de \u201cetiqueta intelectual\u201d ou que n\u00e3o passem razoavelmente no teste dos quatro erros n\u00e3o mereceriam resposta. Ou seja, aquele text\u00e3o t\u00e3o irritante do Facebook n\u00e3o merece qualquer aten\u00e7\u00e3o se n\u00e3o tiver sido escrito com o m\u00ednimo de educa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o contiver dados que possam ser comprovados ou rebatidos.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\">Eu acredito que, seguindo as ideias de Adler, e adotando algumas extrapola\u00e7\u00f5es, brigar na internet passaria a ser um exerc\u00edcio de argumenta\u00e7\u00e3o e aprendizado bem interessante.<\/p>\n<p class=\"\"><strong>Vamos brigar!<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">(Lembrando que abuso, bullying e discurso de \u00f3dio n\u00e3o devem ser discutidos, mas denunciados).&nbsp;<br \/>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"\">(Imagens: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/\">Unsplash<\/a>)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea nunca quis brigar no Facebook tem algo errado com voc\u00ea. Brincadeira \u00e0 parte, quem nunca leu uma bobagem na internet e precisou conter a \u00e2nsia de sair logo criticando? 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