{"id":254,"date":"2019-10-29T11:00:00","date_gmt":"2019-10-29T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/suzanavalenca6.wordpress.com\/2019\/10\/29\/2019-10-29-por-que-nos-metemos-em-tanta-treta-pelo-whatsapp\/"},"modified":"2019-10-29T11:00:00","modified_gmt":"2019-10-29T11:00:00","slug":"2019-10-29-por-que-nos-metemos-em-tanta-treta-pelo-whatsapp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/suzanavalenca.com\/?p=254","title":{"rendered":"Por que nos metemos em tanta treta pelo WhatsApp?"},"content":{"rendered":"<div class=\"sqs-html-content\">\n<p class=\"\">Eu ri alto no meio do shopping quando a minha amiga reclamou muito s\u00e9ria, <strong>\u201cvoc\u00ea sabe que todo mundo l\u00ea ignorante\u201d<\/strong>. N\u00f3s somos jornalistas, pagamos cadeiras de teoria da comunica\u00e7\u00e3o e l\u00e1 estava ela simplificando tudo em uma s\u00f3 bronca. <\/p>\n<p class=\"\">Eu tinha contado para Karlilete (Karlilian Magalh\u00e3es, comunic\u00f3loga ambientalista fant\u00e1stica) sobre uma troca de mensagens atravessada que eu tinha tido pelo Whatsapp alguns dias antes. Ela argumentava que eu estava errada porque, <strong>lendo textos escritos em uma tela, o receptor sempre tende a interpretar as palavras de forma agressiva.<\/strong> Algo que dito pessoalmente poderia ser inofensivo, fica automaticamente grosseiro se for escrito. Karlilian estava exagerando, claro, mas a ideia dela faz sentido e voc\u00ea j\u00e1 deve ter percebido isso na pr\u00e1tica. <\/p>\n<p class=\"\">Carolina Falc\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m jornalista e minha amiga da faculdade. Recentemente, ela me deu uma aula sobre as <strong>teorias da comunica\u00e7\u00e3o que explicam porque temos dificuldade de nos entender direitinho por apps de texto.<\/strong><\/p>\n<h2>O outro vai entender o que ele pensa, n\u00e3o o que voc\u00ea quis dizer <\/h2>\n<p class=\"\">Falhas no entendimento costumavam ser chamadas de \u201cru\u00eddo na comunica\u00e7\u00e3o\u201d. Carol come\u00e7a explicando que essa \u00e9 uma ideia ultrapassada. Assim como a estrutura\u00e7\u00e3o de uma conversa (ou qualquer produto de comunica\u00e7\u00e3o) em \u201cemissor enviando uma mensagem para um receptor\u201d. <\/p>\n<p class=\"\">\u201cSe a gente pensar que os esquemas de comunica\u00e7\u00e3o lidam com a ideia de que existe um emissor, uma mensagem e um receptor, o ru\u00eddo \u00e9 justamente quando a mensagem escapa de um sentido ou de um efeito de sentido que estava previsto. Qual \u00e9 a cr\u00edtica ao conceito de ru\u00eddo? A cr\u00edtica, feita principalmente a partir dos estudos culturais, \u00e9 sobre a ideia de que existe algum controle do emissor sobre o sentido da mensagem\u201d. <\/p>\n<p class=\"\">Ou seja, qualquer comunica\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, algo bem mais amplo do que emissor &#8211; mensagem &#8211; receptor. <strong>Tudo o que \u00e9 dito passa pela interpreta\u00e7\u00e3o dos envolvidos.<\/strong> N\u00e3o existe \u201cru\u00eddo\u201d porque n\u00e3o existe um significado 100% fixo para o que dizemos. <\/p>\n<p class=\"\">\u201cN\u00e3o existe como assegurar o sentido [da mensagem]. O sentido, na verdade, \u00e9 um efeito. <strong>O sentido \u00e9 um efeito que deve ser negociado.<\/strong> Obviamente que existem sentidos hegem\u00f4nicos que v\u00e3o circular de maneira muito mais eficiente, mas ele nunca est\u00e1 garantido ou dado a priori, ele precisa ser refor\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"\n          image-block-outer-wrapper\n          layout-caption-below\n          design-layout-inline\n          combination-animation-none\n          individual-animation-none\n          individual-text-animation-none\n        \"><\/p>\n<figure class=\"\n              sqs-block-image-figure\n              intrinsic\n            \" style=\"max-width:820px\"><\/p>\n<div class=\"image-block-wrapper\">\n<div class=\"sqs-image-shape-container-element\n              \n          \n        \n              has-aspect-ratio\n            \" style=\"position: relative;padding-bottom:38.414634704589844%;overflow: hidden\"><\/p>\n<p>                  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suzanavalenca.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/2f770-whatsapp-1.png\" alt=\"whatsapp.png\" width=\"820\" height=\"315\" style=\"display:block;object-fit: cover;width: 100%;height: 100%;object-position: 50% 50%\" loading=\"lazy\"><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/figure><\/div>\n<div class=\"sqs-html-content\">\n<h2>Entender por escrito \u00e9 mais dif\u00edcil do que cara a cara <\/h2>\n<p class=\"\">Carol continua:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cN\u00e3o existe como a mensagem dar errado. O que existe \u00e9 o sentido se concluir dentro das condi\u00e7\u00f5es e das conting\u00eancias nas quais ele acontece. N\u00e3o existe mensagem errada ou certa, isso seria um aparato muito funcionalista. <strong>\u00c9 mais interessante pensar em quais seriam as negocia\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o sentido acontecer<\/strong>\u201d. <\/p>\n<p class=\"\">Na pr\u00e1tica, isso quer dizer que uma palavra pode significar algo para mim, mas outra para voc\u00ea. Para mim, poder ser uma piada, por exemplo, mas para voc\u00ea pode ser uma ofensa. Nesse dia, eu terminei minha conversa com Carol dizendo \u201csua comunista!\u201d. Era uma brincadeira que tinha a ver com o que a gente estava discutindo. Mas imagina se eu falo isso \u201cdo nada\u201d? Poderia ter soado estranho para ela.<\/p>\n<p class=\"\">O problema de certas express\u00f5es ou termos terem sentidos diferentes para cada pessoa fica ainda mais complicado quando vamos para a linguagem escrita. Ou para o WhatsApp. <strong>Sem a intera\u00e7\u00e3o pessoal, como vou saber se a pessoa est\u00e1 brincando ou falando s\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"\">Dia desses, eu estava trocando mensagens com uma cliente e ela sugeriu que eu escrevesse sobre determinado assunto. Acontece que eu j\u00e1 estava fazendo um texto sobre aquele mesmo tema. Para expressar a minha alegria com a coincid\u00eancia eu mandei uma mensagem dizendo: <\/p>\n<p class=\"\">\u201cEstou escrevendo exatamente isso!\u201d<\/p>\n<p class=\"\">E ela me respondeu:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cSe eu n\u00e3o te conhecesse eu ia achar que voc\u00ea estava brigando comigo\u201d. <\/p>\n<p class=\"\">Veja s\u00f3 que coisa! Eu queria dizer:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cQue coincid\u00eancia incr\u00edvel que a sugest\u00e3o que voc\u00ea me deu \u00e9 exatamente o que eu j\u00e1 estava fazendo. N\u00e3o \u00e9 maravilhoso que pensamos a mesma coisa ao mesmo tempo? Eu concordo muito com o que voc\u00ea disse, tanto que j\u00e1 havia escrito a mesma coisa. Nossa sincronia est\u00e1 afinad\u00edssima, que bom que estamos trabalhando juntas\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">S\u00f3 que o que eu havia escrito era s\u00f3 uma frase seca com uma exclama\u00e7\u00e3o no final. <strong>Nada no texto em si poderia indicar sua voca\u00e7\u00e3o para o bem ou para o mal.<\/strong> A minha mensagem, isoladamente, poderia significar:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEu j\u00e1 fiz o que voc\u00ea pediu. N\u00e3o precisa me dizer o que fazer. Ali\u00e1s, sua sugest\u00e3o \u00e9 totalmente in\u00fatil porque o que voc\u00ea acabou de falar \u00e9 exa-ta-men-te o que eu j\u00e1 estou fazendo\u201d. <\/p>\n<p class=\"\">N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel?<\/p>\n<h2>O WhatsApp \u00e9 terreno f\u00e9rtil para desentendimentos<\/h2>\n<p class=\"\">Carol explica esse fen\u00f4meno:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cSe voc\u00ea pensa um aplicativo como um texto que est\u00e1 nessa cultura digital, voc\u00ea pode pensar que, sim, as pessoas que v\u00e3o ler o texto fazem uso de um repert\u00f3rio e de um vocabul\u00e1rio muito mais disperso do que a ideia de que o emissor controla. Talvez nas comunica\u00e7\u00f5es de massa isso fizesse sentido porque voc\u00ea tinha poucos emissores e v\u00e1rios receptores juntos assistindo \u00e0 tv ou ouvindo r\u00e1dio. Mas, quando voc\u00ea elimina essas media\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o exemplo da comunica\u00e7\u00e3o em rede, voc\u00ea n\u00e3o precisa que o emissor esteja no mesmo momento dos receptores, <strong>voc\u00ea n\u00e3o tem como controlar o sentido\u201d<\/strong>. <\/p>\n<p class=\"\">\u201cUm exemplo s\u00e3o os textos no Whatsapp. A gente vai precisar conhecer muito ou estar muito presente na enunciativa para ter certeza absoluta do tom que aquelas palavras representam no di\u00e1logo. Por isso, \u00e9 muito comum se desentender na internet. Porque <strong>eu n\u00e3o estou junto com o meu emissor para inferir sobre alguma ironia, para inferir sobre algum duplo sentido. \u00c9 por isso que se tem tanto desentendimento, tanta treta\u201d.<\/strong><\/p>\n<h2>Como resolver o problema?<\/h2>\n<p class=\"\">N\u00e3o tem jeito. Nunca aquilo que est\u00e1 dentro da sua cabe\u00e7a ser\u00e1 100% igual \u00e0quilo que est\u00e1 na mente de outra pessoa. <strong>O risco de desentendimento n\u00e3o pode ser eliminado por completo<\/strong>. O que podemos fazer \u00e9 estabelecer acordos, aproxima\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\">Existe sim, formas de facilitar a compreens\u00e3o do outro. Se voc\u00ea estiver trocando mensagens de texto com algu\u00e9m que voc\u00ea n\u00e3o conhece muito bem ainda, tente ser o mais claro poss\u00edvel, explique suas ideias sem piadas, sem \u201cmodo de dizer\u201d, sem exageros. Minha amiga Karlilian brinca, \u201cse voc\u00ea coloca uma carinha sorrindo, melhora\u201d. <strong>Na d\u00favida, pergunte.<\/strong> Esses dia, recebi a seguinte indaga\u00e7\u00e3o pelo WhatsApp: \u201cComo estou numa correria, queria saber se posso encaminhar as d\u00favidas e considera\u00e7\u00f5es por aqui mesmo, por \u00e1udio. Soa descort\u00eas para voc\u00ea?\u201d. N\u00e3o foi o m\u00e1ximo? Eu adorei.<\/p>\n<p class=\"\"><\/p>\n<p class=\"\"><\/p>\n<p class=\"\">&#8211; <strong>Karlilian Magalh\u00e3es<\/strong> \u00e9 jornalista e trabalha na Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.mamiferosaquaticos.org.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Funda\u00e7\u00e3o Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos<\/a>. Ela est\u00e1 sempre viajando pela costa do Nordeste fazendo o que mais ama, trabalhando pela prote\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p class=\"\">&#8211; <strong>Carolina Falc\u00e3o<\/strong> \u00e9 jornalista e doutoranda em comunica\u00e7\u00e3o pela <a href=\"https:\/\/www.ufpe.br\/ppgcom\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade Federal de Pernambuco<\/a>. Ela apoia e luta pela universidade p\u00fablica, gratuita e de qualidade.<\/p>\n<p class=\"\">(Fotos: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@igorstarkoff?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Igor Starkov<\/a> e <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@letanloc1941995?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Andrew Le<\/a> no <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/texting?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a>)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu ri alto no meio do shopping quando a minha amiga reclamou muito s\u00e9ria, \u201cvoc\u00ea sabe que todo mundo l\u00ea ignorante\u201d. N\u00f3s somos jornalistas, pagamos cadeiras de teoria da comunica\u00e7\u00e3o e l\u00e1 estava ela simplificando tudo em uma s\u00f3 bronca. 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