{"id":224,"date":"2020-06-04T11:00:00","date_gmt":"2020-06-04T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/suzanavalenca6.wordpress.com\/2020\/06\/04\/2020-6-4-como-ser-uma-aliada-na-luta-contra-onbspracismo\/"},"modified":"2020-06-04T11:00:00","modified_gmt":"2020-06-04T11:00:00","slug":"2020-6-4-como-ser-uma-aliada-na-luta-contra-onbspracismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/suzanavalenca.com\/?p=224","title":{"rendered":"Como ser uma aliada na luta contra o&nbsp;racismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"sqs-html-content\">\n<p class=\"\">[Esta mat\u00e9ria foi escrita por <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/author\/thais-folego\/\">Thais Folego<\/a> para <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/\">AzMina<\/a>, em novembro de 2019. O conte\u00fado est\u00e1 sendo reproduzido aqui com autoriza\u00e7\u00e3o da revista, que permite a repostagem dos textos. Clique para ver o <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/colunas\/voce-se-incomoda-em-frequentar-lugares-em-que-so-ha-brancos\/\">texto original<\/a>]<\/p>\n<p class=\"\"><em>N\u00e3o basta apenas reconhecer o racismo, \u00e9 necess\u00e1rio ser aliada da luta antirracista. Como? Reconhecendo seus privil\u00e9gios e respeitando as vozes negras <\/em><\/p>\n<p class=\"\">Desde que entrei na <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista AzMina<\/a>, minha prioridade tem sido pautar, escrever e editar reportagens que falem sobre e com mulheres negras \u2013 e que sejam escritas e ilustradas igualmente por mulheres negras. Mas nesse m\u00eas da Consci\u00eancia Negra eu quero falar com as mulheres brancas.  <\/p>\n<p class=\"\">E proponho come\u00e7ar com uma pergunta: nos lugares que frequenta, voc\u00ea se incomoda quando n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pessoa negra? Ou que as \u00fanicas pessoas negras sejam as que estejam te servindo ou limpando?&nbsp;  Minha pergunta \u00e9 baseada na seguinte estat\u00edstica: <strong>55,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 composta por pessoas negras<\/strong> (soma de pretos e pardos, segundo a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE). Como, ent\u00e3o, pode um espa\u00e7o ser frequentado apenas por brancos?  Veja bem, n\u00e3o estou perguntando se voc\u00ea j\u00e1 reparou nesse \u201cfen\u00f4meno\u201d, mas se voc\u00ea realmente se incomoda, se isso te causa mal estar, se voc\u00ea fala sobre isso na mesa do bar com as amigas.&nbsp;  <\/p>\n<p class=\"\">Se incomodar \u00e9 um primeiro passo para se tornar aliada da luta das mulheres negras. <strong>\u201cNuma sociedade racista, n\u00e3o basta n\u00e3o ser racista, \u00e9 preciso ser antirracista\u201d<\/strong>, ensina a fil\u00f3sofa <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Angela_Davis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Angela Davis<\/a>, que esteve no Brasil no m\u00eas passado.  <\/p>\n<h2>Como ser aliada?&nbsp;       <\/h2>\n<p class=\"\">A pedagoga Carla Souza d\u00e1 a cartilha para ser uma aliada das mulheres negras: reconhe\u00e7a seus privil\u00e9gios, <strong>dialogue entre os seus sobre atitudes racistas, respeitem nossas vozes <\/strong>(n\u00e3o nos interrompa quando estivermos falando), <strong>ceda o protagonismo<\/strong>.&nbsp;\u201cN\u00e3o queremos protagonismo \u00fanico como vem sendo feito h\u00e1 s\u00e9culos pelos povos colonizadores, queremos amplia\u00e7\u00e3o de narrativas. Sobre nossas pautas falamos n\u00f3s\u201d, afirma Carla em artigo do site <a href=\"http:\/\/blogueirasnegras.org\/\">Blogueiras Negras<\/a>.&nbsp;As mulheres negras est\u00e3o propondo esse di\u00e1logo. Recomendo o livro que a fil\u00f3sofa e ativista <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Djamila_Ribeiro\">Djamila Ribeiro<\/a> acaba de lan\u00e7ar, <a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=14774\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pequeno Manual Antirracista<\/a>, onde em dez li\u00e7\u00f5es breves ela explica as origens do racismo e como combat\u00ea-lo.&nbsp; <\/p>\n<p class=\"\">Enquanto mulher negra de pele clara, filha de pai preto e m\u00e3e branca, muitas vezes eu sou a \u00fanica negra em muitos rol\u00eas \u2013 ainda que muitas pessoas n\u00e3o me enxerguem assim (mas essa problematiza\u00e7\u00e3o \u00e9 papo para outro dia). E vou te dizer, isso \u00e9 muito inc\u00f4modo. <strong>\u00c9 muito inc\u00f4modo \u201cestar sozinha\u201d<\/strong>.&nbsp;  <\/p>\n<p class=\"\">As pessoas que se parecem fisicamente comigo nesses espa\u00e7os s\u00e3o a tia do caf\u00e9, a tia da limpeza, a empregada dom\u00e9stica, a gar\u00e7onete. Normalmente <strong>o nome dessas pessoas nem \u00e9 perguntado<\/strong> \u2013 \u00e9 a tia, a mo\u00e7a. Nenhum problema em exercer essas profiss\u00f5es. O problema \u00e9 quando elas s\u00e3o destinadas apenas \u00e0s mulheres negras. O problema \u00e9 quando s\u00e3o a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de atividades com remunera\u00e7\u00e3o.&nbsp;  <\/p>\n<p class=\"\"><strong>Repare que o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 uma hist\u00f3ria que se repete nas fam\u00edlias negras por gera\u00e7\u00f5es<\/strong>, com av\u00f3s, filhas e netas nessa fun\u00e7\u00e3o. Esse ciclo est\u00e1 come\u00e7ando a ser quebrado com o ingresso da popula\u00e7\u00e3o negra nas universidades gra\u00e7as \u00e0 pol\u00edtica de cotas raciais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"\n          image-block-outer-wrapper\n          layout-caption-below\n          design-layout-inline\n          combination-animation-none\n          individual-animation-none\n          individual-text-animation-none\n        \"><\/p>\n<figure class=\"\n              sqs-block-image-figure\n              intrinsic\n            \" style=\"max-width:627px\"><\/p>\n<p>          <a class=\"\n                sqs-block-image-link\n                \n          \n        \n              \" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CA8iQk9lsYO\/\"><\/p>\n<div class=\"image-block-wrapper\">\n<div class=\"sqs-image-shape-container-element\n              \n          \n        \n              has-aspect-ratio\n            \" style=\"position: relative;padding-bottom:101.75439453125%;overflow: hidden\"><\/p>\n<p>                  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suzanavalenca.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f2cf5-aliada2.png\" alt=\"Clique na imagem para ver as orienta\u00e7\u00f5es.\" width=\"627\" height=\"638\" style=\"display:block;object-fit: cover;width: 100%;height: 100%;object-position: 50% 50%\" loading=\"lazy\"><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p>          <\/a><figcaption class=\"image-caption-wrapper\">\n<div class=\"image-caption\">\n<p class=\"\">Clique na imagem para ver as orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"sqs-html-content\">\n<h2>Ra\u00e7a \u00e9 fundamento, n\u00e3o recorte <\/h2>\n<p class=\"\">H\u00e1 quem argumente que o problema do Brasil \u00e9 social, n\u00e3o racial. Vou explicar porque n\u00e3o \u00e9. Melhor, vou usar uma frase da educadora <a href=\"https:\/\/www.al.sp.gov.br\/deputado\/?matricula=300625\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Erica Malunguinho<\/a>, hoje deputada estadual por S\u00e3o Paulo. \u201cClasse \u00e9 uma consequ\u00eancia de ra\u00e7a em territ\u00f3rios como o Brasil. Ra\u00e7a \u00e9 o fundamento da nossa sociedade, n\u00e3o \u00e9 recorte\u201d, disse em um dos eventos na <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aparelhaluzia\/?hl=en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aparelha Luzia<\/a>, espa\u00e7o de conviv\u00eancia negra em S\u00e3o Paulo.  <\/p>\n<p class=\"\">Mas o que \u00e9 fundamento? Numa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 o alicerce, a base de uma casa. Troque a \u201ccasa\u201d pelo \u201cBrasil\u201d e fica mais f\u00e1cil entender: <strong>300 anos de escravid\u00e3o no Brasil estabeleceram ra\u00e7a como a base sobre a qual o pa\u00eds foi constru\u00eddo.<\/strong> E dessa base deriva a posi\u00e7\u00e3o que as pessoas pretas ocuparam na sociedade brasileira ao longo da hist\u00f3ria at\u00e9 hoje.&nbsp;   <\/p>\n<p class=\"\">A hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia \u00e9 um \u00f3timo exemplo de como o racismo move as engrenagens da sociedade e da economia do pa\u00eds desde sempre. E como ele perpetua as viol\u00eancias da escravid\u00e3o. Como eu disse, a fam\u00edlia do meu pai \u00e9 negra e a da minha m\u00e3e \u00e9 branca.&nbsp;  <\/p>\n<p class=\"\">A fam\u00edlia da minha m\u00e3e \u00e9 descendente de italianos, com uma hist\u00f3ria bem parecida com a da novela Terra Nostra (quem lembra do casal Matteo e Giuliana?). Meus tatarav\u00f3s se conheceram no navio, se apaixonaram, a mina desembarcou gr\u00e1vida no Brasil e eles se casaram. Viveram do trabalho em fazendas de caf\u00e9 que o Estado brasileiro garantiu a esses imigrantes.&nbsp;<strong>Isso permitiu \u00e0 minha fam\u00edlia branca estrutura m\u00ednima para que permanecesse unida e tivesse condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia. O mesmo n\u00e3o foi garantido \u00e0 minha fam\u00edlia negra.  <\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"\n          image-block-outer-wrapper\n          layout-caption-below\n          design-layout-inline\n          combination-animation-none\n          individual-animation-none\n          individual-text-animation-none\n        \"><\/p>\n<figure class=\"\n              sqs-block-image-figure\n              intrinsic\n            \" style=\"max-width:600px\"><\/p>\n<div class=\"image-block-wrapper\">\n<div class=\"sqs-image-shape-container-element\n              \n          \n        \n              has-aspect-ratio\n            \" style=\"position: relative;padding-bottom:56.16666793823242%;overflow: hidden\"><\/p>\n<p>                  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suzanavalenca.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/18b63-azminaaliadacontraracismo.jpg\" alt=\"(Imagens: Est\u00fadio Rebimboca\/AzMina)\" width=\"600\" height=\"337\" style=\"display:block;object-fit: cover;width: 100%;height: 100%;object-position: 50% 50%\" loading=\"lazy\"><\/p><\/div>\n<\/p><\/div><figcaption class=\"image-caption-wrapper\">\n<div class=\"image-caption\">\n<p class=\"\">(Imagens: Est\u00fadio Rebimboca\/AzMina)<\/p>\n<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"sqs-html-content\">\n<p class=\"\">Esses imigrantes foram trazidos para substituir o trabalho de negros escravizados ap\u00f3s a \u201caboli\u00e7\u00e3o\u201d da escravid\u00e3o. Ou seja, o trabalho dos ancestrais da fam\u00edlia do meu pai, que n\u00e3o tiveram pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas ao trabalho e moradia, ap\u00f3s serem separados de suas fam\u00edlia e escravizados por tr\u00eas s\u00e9culos no Brasil.  <strong>Como todas as fam\u00edlias negras, a minha ainda est\u00e1 superando as consequ\u00eancias do trauma e da pol\u00edtica de exclus\u00e3o e exterm\u00ednio.<\/strong> E veja bem, isso n\u00e3o leva anos para superar, mas GERA\u00c7\u00d5ES. Mais do que de condi\u00e7\u00f5es financeiras e sociais, estou falando de estrutura familiar e afetos.&nbsp;  <\/p>\n<p class=\"\">Parece coisa de livro de hist\u00f3ria, mas meu pai tem a escravid\u00e3o em suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia. Ele lembra de sua bisav\u00f3, mulher escravizada, j\u00e1 velha, em sua cama, penteando seus longos cabelos brancos. <strong>Ao deixar de cobrir suas costas, os cabelos expunham as marcas de a\u00e7oites.&nbsp;  <\/strong><\/p>\n<p class=\"\">Foi s\u00f3 em 2001 (portanto, 113 anos ap\u00f3s a assinatura da Lei \u00c1urea) que o Estado reconheceu que deveria fazer pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas para a popula\u00e7\u00e3o negra. Foi nos anos seguintes que a hist\u00f3ria afro-brasileira entrou para a pol\u00edtica nacional de ensino, que foi estabelecida uma pol\u00edtica de sa\u00fade para a popula\u00e7\u00e3o negra, que foram implementadas cotas raciais nas universidades.  <\/p>\n<p class=\"\">Pois bem, temos avan\u00e7ado, sobretudo porque o povo negro desenvolveu tecnologias avan\u00e7adas de resist\u00eancia. Mas ainda n\u00e3o \u00e9 o suficiente. E n\u00e3o estamos propondo uma invers\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es. <strong>N\u00e3o queremos tomar o lugar de privil\u00e9gio. Queremos \u00e9 uma sociedade em que todos tenham direito \u00e0 vida, e uma vida digna<\/strong>. E podemos ter aliadas nessa luta.<\/p>\n<p class=\"\">[Veja o <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/colunas\/voce-se-incomoda-em-frequentar-lugares-em-que-so-ha-brancos\/\">texto original<\/a>]<\/p>\n<p class=\"\">(Imagens: Est\u00fadio Rebimboca\/AzMina) <\/p>\n<p class=\"\">(Imagem: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@capturedby_kiana?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Kiana Bosman<\/a>&nbsp;no&nbsp;<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/fist?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a>)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Esta mat\u00e9ria foi escrita por Thais Folego para AzMina, em novembro de 2019. O conte\u00fado est\u00e1 sendo reproduzido aqui com autoriza\u00e7\u00e3o da revista, que permite a repostagem dos textos. Clique para ver o texto original] N\u00e3o basta apenas reconhecer o racismo, \u00e9 necess\u00e1rio ser aliada da luta antirracista. Como? 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